Europa aprende a lidar com um aliado instável após um ano de Trump

Ao longo de 2025, a União Europeia (UE) teve que encarar uma realidade desconfortável: os Estados Unidos, historicamente seu principal aliado, passaram a agir de forma imprevisível sob a liderança do presidente Donald Trump. O resultado foi um ano de tensões políticas, econômicas e de segurança que agora pesa sobre mais uma cúpula da UE, realizada em Bruxelas.

O pano de fundo dessa reunião é delicado. A Ucrânia enfrenta sérias dificuldades financeiras em meio à guerra contra a Rússia, e os líderes europeus prometeram bancar as necessidades econômicas e militares do país pelos próximos dois anos. Isso deve acontecer por meio de um novo empréstimo financiado com ativos russos congelados na Europa.

Para o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, o momento é decisivo. Segundo ele, além de sustentar a economia ucraniana, a decisão serve para mandar um recado claro ao mundo — inclusive à Casa Branca — de que a Europa quer ser vista como um ator geopolítico forte, e não apenas como coadjuvante.

Desde que voltou ao poder em janeiro, Trump tem adotado uma postura errática em relação à guerra. Em um mês, sinaliza apoio à Ucrânia; no seguinte, parece se aproximar da Rússia. Ao mesmo tempo, mantém críticas duras à Europa, muitas vezes com um tom mais agressivo do que diplomático.

Essa instabilidade forçou os europeus a preencher lacunas deixadas pelos americanos, principalmente no apoio militar a Kiev. Ainda assim, os líderes da UE reconhecem que os EUA seguem sendo um parceiro difícil de substituir — especialmente porque Trump é visto como o único líder ocidental com acesso direto ao presidente russo Vladimir Putin.

O alerta ficou ainda mais claro nas palavras do chanceler alemão Friedrich Merz, que afirmou que a Europa vive um momento de virada. Para ele, o cenário atual exige respostas bem diferentes das adotadas no passado, inclusive mais independência na área de segurança.

Pouco depois da posse de Trump, a mensagem vinda de Washington foi direta: os interesses de segurança dos EUA estão em outro lugar, e a Europa precisa cuidar de si mesma — e da Ucrânia. O clima piorou quando o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy foi constrangido em uma reunião na Casa Branca em fevereiro.

A situação se agravou com declarações do vice-presidente JD Vance, que acusou a Europa de restringir a liberdade de expressão e chegou a sugerir interferência política ao se reunir com líderes da extrema-direita alemã. Essas ideias foram depois reforçadas em uma nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, que também atacou a política migratória europeia.

Outro ponto de atrito foi um plano de 28 pontos, elaborado pelos EUA junto com a Rússia, para encerrar a guerra. O documento incluía antigas exigências do Kremlin e tentava recolocar Putin no centro do cenário internacional. A proposta foi rejeitada pela Ucrânia e por grande parte da Europa, mas elogiada por autoridades russas.

No campo econômico, a tensão também cresceu. Em abril, Trump anunciou tarifas globais, alegando emergência econômica. Em julho, EUA e UE chegaram a um acordo que fixou tarifas de 15% sobre a maioria dos produtos, evitando punições ainda maiores. Mesmo assim, a Europa passou a buscar acordos comerciais com outros parceiros, especialmente na Ásia.

Na área militar, os países europeus da OTAN aceitaram a exigência de Trump de investir 5% do PIB em defesa, embora muitos ainda tenham dificuldade para alcançar a antiga meta de 2%. A UE agora acelera os gastos e quer estar preparada para se defender sozinha até 2030, diante do temor de que a Rússia possa ampliar o conflito.

Autoridades de segurança, como o novo chefe do MI6, Blaise Metreweli, e o comandante das Forças Armadas britânicas, Richard Knighton, alertam que a estratégia de Putin é dividir e enfraquecer a OTAN. Para eles, o risco não é distante.

É nesse cenário que a nova cúpula da UE acontece. Sem a presença dos Estados Unidos, os líderes discutem como financiar a economia e o esforço militar da Ucrânia pelos próximos dois anos. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, deixou claro que só sai acordo — nem que a reunião precise durar dias.

No fim das contas, o recado é simples: a Europa percebeu que não pode mais contar cegamente com um aliado imprevisível. E isso muda tudo — da política externa aos gastos militares — com impacto direto no futuro do continente e na guerra que ainda redefine o mapa da segurança global.

Fonte: apnews

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